| Muita
coisa não andava bem naquele início de inverno. Preta Ervina parou sem explicação com
o vício de mascar tabaco, enquanto madrugava capinando terreiro com luz de lamparina.
Demônio do Álcool e Dia Porre passaram uma semana sem beber uma gota sequer da maldita,
e uma cunhantã descuidada, pra azar dela, acabou deixando escapulir na correnteza do
igarapé, o enorme penico de alumínio da minha vó. Este, um objeto de estimação com
regalia de habitar o quarto principal da casa, dormia de prontidão numa armadura de
madeira de lei em formato de trono, para receber toda cinco horas da manhã a infalível
descarga barulhenta de duas pílulas da vida tomadas à boca da noite. A cunhantã sem
préstimo, foi castigada com duas dúzias de palmatoadas.
Grandes toiças de
capim, desprendidas pela força das águas, desciam mansamente o rio e os caminhos
tornavam-se difíceis de andar pela freqüência perigosa da venenosa surucucu pico de
jaca. O uruá colocava seus ovos mais alto que de costume, como que adivinhando o nível
que a cheia ia atingir naquele ano. E o pom-pom, patinho selvagem que tem fama de cantar
chamando enchente, começou a se acasalar mais cedo, tudo indicando que 1953 seria, como
aliás foi, um só mundaréu de água.
Tão logo o dilúvio
levou a última lasca de terra, foi iniciada a construção da avantajada maromba na parte
mais rasa da restinga. Era avistada da cozinha e passava dia e noite emitindo mugidos de
fome e sofrimento que mais pareciam uma canção de morte. Em forma de quadrilátero,
tinha a sustentá-la fileiras superpostas de toras que se cruzavam por cada etapa do
soerguimento, utilizando-se o apuizeiro e outras espécimes flutuantes de fácil reboque
por canoa, importando apenas que durassem o tempo necessário para o sustento do gado
naqueles meses críticos da invernada.
Com dois metros acima
da lâmina d'água, altura certa para evitar uma nova e trabalhosa tarefa de levantamento,
a maromba acomodava por cima um vasto tabuado com divisões para gado adulto, cavalos e
outra de tamanho acanhado mas coberta de palha para o melhor conforto dos bezerros. Em
volta, e abrangendo toda a periferia, havia uma cerca forte com porteira de rampa, por
onde a boiada descia toda semana para se proceder a limpeza. Nesse curto tempo fora e
quase de bubúia, as vacas tinham suas mamas decepadas pelo ataque das piranhas e algumas
línguas eram cortadas pelo dente afiado da trairambóia. As canoas enfileiradas partiam
cedo no reboque de um motorzinho de popa, sempre em busca da canarana cada dia mais
escassa e distante.
Porém, se a
cheia foi um mal para o gado, se trouxe grandes prejuízos para os criadores e juteiros,
trouxe também outro verão de pastos renovados por causa da revitalização da camada de
húmus que o sábio rio carrega e há milênios deposita.
Bom para a floresta
submersa, pois é durante a cheia que frutificam os marajazeiros, socorozeiros,
pupunharanas e montes de outras árvores frutíferas, nativas do igapó, onde se cruzam
cardumes de tambaquis e pirapitingas na busca do alimento que despenca, ou, quando
atraídos pela armadilha da gaponga, acabam esbarrando num traiçoeiro anzol disfarçado
de fruta.
Bom para o menino que
fazia pescaria de sardinha, bastando que seu Zé Preto batesse num galho seco ou enfiasse
o remo derrubando uma casa de cupim. Logo a água ficava minada de reflexos prateados
desses peixinhos, facilmente logrados com isca de pirão de farinha ou larva de caba de
igreja.
Mal para os cupins que,
além de atração para as sardinhas, tiveram suas casas esburacadas e invadidas pelos
periquitos testa amarela em época de desova.
Bom para as vorazes
piranhas que deceparam as tetas das vacas, que transformaram garrotes maravilhosos,
futuros reprodutores, em avantajados bois de corte.
Mal para a preta Ervina
que nunca foi de dispensar um bom culhão guisado de garrote.
Mal para as formigas de
fogo, juntando-se desesperadamente umas sobre as outras, formando bolas nas guias dos
juquirizeiros.
Tempo de boa vida para
o manhoso sucuriju que teve maior benefício e liberdade de agir junto aos galinheiros e
chiqueiros dos porcos.
Bom para os urubus,
perseguidores da carne no varal, mesmo com risco de serem apanhados no anzol do seu Zé
Preto.
Mal para os ratos,
obrigados a procurar esconderijo mais alto e ficando à mercê dos gatos.
Mal para os gatos,
prisioneiros dos telhados, contra os cães impacientes no assoalho.
Mal para os plantadores
de juta. Perderam o jutal e o crédito da próxima safra.
Bom, incrivelmente bom
para os criadores. Depois de 53, muitos anos se passaram sem que houvesse outra cheia
grande, havendo total recuperação dos rebanhos. A cheia fez desaparecer no seu bojo, a
raiva, as pestes, os carrapatos e mil pragas que a terra acumula. As duas décadas
seguintes foram de muita fartura para os fazendeiros.
Excelente para o garoto
que brincava de barquinho, de contar os animais mortos descendo o rio de bubúia e
apinhados de urubus; que amava o filhote de capivara trazido por seu Zé Preto no começo
da cheia.
Aí veio um lento
começo de vazante. A água baixava uma polegada por dia, às vezes subia meia, numa
indecisão irritante. Certa manhã apareceu o primeiro torrão mais afoito. O limo do
fundo, de cor verde-musgo e em forma de rabo de cavalo, já aparecia coberto por leve
película de água que piriricava ao sabor da brisa, penteando aquela farta cabeleira na
suave corrente. Logo estaria lama
Que dizer do triste
galo pedrês, empoleirado o inverno inteirinho, que amanheceu cantando como há muito não
fazia? Três meses e tanto sem ver uma crista de terra pra ciscar. Cantava, cantava
desesperadamente para o terreiro que saía lamacento, acolhendo com amor as andanças do
galo e saboreando o bater das asas como lufada que revigora. O galo não parava um minuto.
Às dez da manhã, ouvia-se ainda um som diáfano mas veemente de cantoria, como se fosse
um artista embriagado no aplauso da multidão. Seu palco, o terreiro lamacento. O garoto
apreciava sem entender os motivos do galo naquela lama esperançosa de poeira. Não
entendeu, sobretudo, a corda de envira roída, a fuga do filhote de capivara.
-Fica triste não,
filho, a capivara foi pra casa.
-Capivara tem
casa, mãe?
-Todos os bichos têm.
-Seu Zé Preto também?
-Seu Zé Preto não é
bicho!
-Mas ele tem casa?
-Bom, deveria ter.
Permaneceu minutos na
mesma posição. Apenas com os olhos, acompanhava o galo no seu desastrado mas constante
canto de alegria, vendo afundar os pés da ave andarilha e teimosa, que ia deixando um
caminho de pegadas no tijuco. Ergueu a cabeça lamentando o céu azul de Julho: "Bem
podia dar outra chuvarada, encher o rio, quem sabe minha capivara voltava". Aperta
com força a ponta roída da corda: "Todo mundo indo embora, parecendo aquela
história da arca de Noé que mamãe contou. Os bichos indo pra casa, os homens
também".
Imaginou mais um pouco
e entendeu a alegria do galo, entendeu o filhote de capivara, pensou que o igapó é vida,
que a água desse Amazonas pode ser tanto um grande fim como um grande começo, que o
mundo é um sempre perder e ganhar. Pulou até onde o galo estava e sentou-se partilhando
a lama com ele. Alí posto, baixou a cabeça entre os joelhos e ficou um tempão parado,
cheio de silêncio. Depois, meio lacrimoso, entendeu também que um pedaço feliz da sua
infância tinha sido levado junto com a vazante da cheia para nunca mais.
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